22 de out. de 2025

Acampamentos Polarizados

Acampamentos Polarizados — Gianni Rodrigues

Acampamentos Polarizados

© Gianni Rodrigues — 26/02/2023

Edna era uma professora bem-sucedida que, nas horas vagas, trabalhava como consultora de estilo para pessoas do ramo empresarial. Ela sempre gostou de acampar desde jovem, mas não gostava da ideia de se desconectar do estilo e conforto aos quais estava acostumada. Viajava pelo Brasil em busca de locais para acampar que oferecessem um pouco mais de infraestrutura do que os lugares comuns, onde as pessoas simplesmente montavam suas barracas sem pensar nas consequências.

Um dia, em um acampamento no litoral de Santa Catarina, Edna notou que o local estava malcuidado e sujo. Ela foi ver o estado dos banheiros e ficou chocada. As trilhas também estavam malcuidadas e repletas de lixo. Para alguém como ela, era impossível se instalar em um local assim. Edna foi até a administração do parque e pediu para falar com o responsável pelo local. Explicou que era uma viajante experiente e que gostaria de acampar naquele lugar, que tinha uma bela natureza, mas estava muito preocupada com a falta de higiene e conforto.

O responsável ficou bastante envergonhado e pediu desculpas. Disse que não esperava a visita de alguém tão refinado e que, normalmente, recebiam apenas pessoas que chegavam ali em barracas improvisadas, levando apenas uma muda de roupa. Edna explicou que acampar não significa abrir mão do conforto e da higiene, e que muitas pessoas como ela apreciam estar em contato com a natureza sem abdicar da elegância.

O administrador do parque ficou surpreso e desconcertado com essas palavras e concordou imediatamente em melhorar as condições do local. Pediu desculpas novamente pela falta de cuidado e disse que, naquele dia, poderia mandar limpar uma pequena área para que Edna acampasse, mas que depois faria de tudo para deixar o restante do parque nas melhores condições possíveis. Edna ficou feliz com a resposta e decidiu acampar no local. O administrador também passou a prestar mais atenção a si mesmo. Percebeu que sua gravata estava gasta, o paletó desbotado, a barba por fazer e o cabelo malcortado; então decidiu que também queria se sentir elegante.

Nos dias seguintes, Edna começou a notar que outras pessoas estavam seguindo seu exemplo. Pessoas que gostavam de acampar, mas que não queriam abrir mão do conforto, começaram a procurá-la nas redes sociais para obter dicas de como acampar com estilo e elegância. Ela começou a publicar fotos e vídeos de seus acampamentos e, em pouco tempo, já tinha milhares de seguidores.

Edna decidiu aproveitar a oportunidade para criar uma escola de acampamento de luxo. Criou um curso online que ensinava as pessoas a acampar com estilo, oferecendo dicas de saúde e beleza, de como escolher a barraca certa, preparar refeições mais sofisticadas na natureza e se vestir adequadamente para um acampamento verdadeiramente elegante.

A escola de Edna foi um sucesso instantâneo. As pessoas estavam ansiosas para aprender como acampar com estilo, e as vagas se esgotavam rapidamente. Em pouco tempo, Edna começou a ser convidada para dar palestras em todo o país. Falava sobre a importância de se reconectar com a natureza, mas sem abdicar do conforto e da elegância.

Enquanto isso, outra professora, chamada Chida, viu no sucesso de Edna uma grande oportunidade e começou a pregar uma filosofia oposta. Dizia que a verdadeira função do acampamento era fazer as pessoas se conectarem com as raízes mais primitivas da humanidade.

Chida criou o conceito do acampamento selvagem e saiu pregando que o verdadeiro objetivo do acampamento era a volta às origens, deixando de lado o conforto, o luxo e, para os mais fortes, abdicando até mesmo dos banheiros — indo fazer as necessidades no meio do mato.

Quando Chida passava em frente aos banheiros coletivos e via filas de pessoas com toalhas e sabonetes nas mãos, seguindo as dicas de Edna, mandava todos embora imediatamente e dizia que dormir suado e sem banho era uma oportunidade única de sentir o verdadeiro cheiro da humanidade.

Os seguidores de Chida passaram a ser conhecidos como “Os Desleixados”, pela crença de que, para se conectar à natureza, era necessário abdicar da higiene pessoal e do conforto. Para tal, o acampamento deveria ser sujo, desgrenhado e livre de frescuras.

Com o tempo, a polarização entre os seguidores de Edna e os de Chida se intensificou. Enquanto Edna continuava a dar palestras e cursos de acampamento de luxo, Chida começou a organizar acampamentos selvagens nos locais mais remotos do país.

De vez em quando, algumas pessoas nesses acampamentos remotos eram atacadas por animais selvagens, cobras ou outros animais peçonhentos. Ficavam dias sem comer quando o local era invadido por animais que roubavam sua comida. Chida dizia que eles estavam sendo testados pelos deuses da natureza.

“Se a natureza é bela, por que devemos ser desleixados?”

Nessa época, essa frase de Edna ficaria famosa, passando a ser estampada em bonés e camisetas. Isso irritou profundamente o grupo dos “Desleixados”, que, nessa altura, passou a ser conhecido também como “Desleixados Extremos”, devido ao fanático fervor por sua líder. Logo, a mídia começou a se interessar pelo conflito, e o debate sobre qual seria o verdadeiro propósito do acampamento se espalhou pelo país. Grande parte da sociedade apoiava Edna, mostrando que era possível acampar com estilo, enquanto outra parte menor, porém barulhenta, gritava nas ruas em nome de Chida, defendendo um estilo de vida mais rústico e primitivo.

Certa vez, em um programa de televisão, houve um grande debate entre seguidores de Edna e de Chida. A produção do programa resolveu convidar pessoas dos dois grupos e separá-las no auditório. De repente, os seguidores de Edna começaram a sentir coceira. Uma mãe olhou os cabelos da filha e encontrou piolhos. Alegou que os piolhos estavam vindo do grupo dos Desleixados. Uma apresentadora do programa, apoiadora de Edna, disse ao vivo que “quem tinha piolhos de estimação deveria ficar em casa”. Houve uma enorme confusão e um quebra-quebra. Foi chamado o Corpo de Bombeiros para acalmar a multidão. Grupos de Direitos Humanos também vieram, o que fez com que o governo lançasse o programa “Auxílio Shampoo”: toda pessoa que tivesse renda de até dois salários mínimos teria direito a criar um perfil em um site do governo, responder um questionário de 230 perguntas e receber um cartão que lhe daria o direito de comprar, com reembolso, meio litro de shampoo por mês.

Muitos programas na televisão e na internet seguiram o mesmo formato, mas, no final, a discussão levou a uma evolução positiva nos acampamentos em todo o Brasil. Os administradores de parques e campings começaram a perceber que Edna havia, de fato, revelado ao público que existia uma enorme demanda por acampamentos mais confortáveis e limpos, e passaram a investir mais em infraestrutura.

Seja como for, o acampamento tornou-se uma atividade mais popular e acessível a todos, independentemente do estilo escolhido, e muitos empregos foram criados nesse segmento. O Presidente da República e o Ministro da Economia tentaram se apropriar desse mérito, dizendo que a ideia era deles, mas a população morria de rir, pois nenhum deles jamais havia sido visto em acampamentos pelo país.

Enquanto isso, Edna e Chida continuaram a promover suas ideias, cada uma sem abdicar de sua escolha. Edna continuou a ensinar as pessoas a acampar com estilo, conforto e elegância, enquanto Chida inspirava outros a se reconectar com a natureza animal e primitiva que existia dentro de cada um.

Mas, no final, o que importava mesmo era que todos pudessem desfrutar da beleza e tranquilidade da natureza da maneira que melhor funcionasse para cada um.

Independentemente do estilo escolhido, todos acabaram ganhando em saúde, vivendo mais ao saírem do sedentarismo, do uso do telefone celular e do computador, e viajando mais para curtir as belezas naturais do país.

   

© Gianni Rodrigues — 26/02/2023



Observação do Autor

Esta obra é uma criação ficcional. Todos os personagens, nomes, locais, eventos e diálogos são fruto da imaginação do autor e utilizados exclusivamente em contexto de ficção e fantasia. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou falecidas, instituições, grupos sociais, políticos, religiosos, científicos, fatos reais ou ideologias é mera coincidência e não deve ser interpretada como representação factual da realidade.
Elementos de terror, ficção científica, sátira, crítica social ou outros gêneros literários são empregados de forma alegórica, simbólica ou hiperbolizada, servindo unicamente aos propósitos de entretenimento, arte e reflexão. Não há intenção de difamar, endossar ou estimular qualquer tipo de violência, discriminação, preconceito ou ofensa a indivíduos, grupos ou crenças. O objetivo desta obra é inspirar a imaginação, promover a leitura e incentivar a reflexão ética e cultural.

Todos os direitos reservados.
Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa do autor.