O GUARDIÃO DAS LUZES
Então eu lhe digo, meu caro amigo: eu jamais poderia imaginar o que o Dr. Varek Antonov havia preparado para mim naquele final de outono.
Como sempre, chegava o fim de semana — e, como sempre, lá ia eu visitá-lo, um grande amigo. Tentava, ao menos, fazê-lo desgrudar um pouco daquelas telas de computador.
Cheguei ao hall de entrada do casarão. Falei com ele pelo interfone, e ele abriu remotamente as fechaduras magnéticas. Digo “as fechaduras” porque nunca vi ninguém tão prevenido contra interrupções quanto ele. Foram desligadas seis fechaduras, num clique sequencial, de baixo para cima da porta.
Entrei e não vi ninguém.
A sala da casa do Dr. Varek era enorme, toda taqueada e com decorações medievais ao longo das paredes — típico de seu estilo. Espaço era o que não faltava. Os móveis eram poucos e práticos. Não dispensava armários nem estantes, mas tudo estava harmoniosamente arranjado — diferente do caos que era seu laboratório. Subitamente, comecei a ouvir sons vindos do piso inferior. Mas eu podia jurar que naquele casarão não havia subsolo. “Deve ser alguma caixa acústica escondida”, pensei.
Foi quando escutei uma voz muito fraca vinda do corredor. Era ele. Pediu-me que fosse até as escadas. Sua voz também vinha de algum alto-falante embutido em algum ponto daquela sala.
— Ei, pare de brincar! Hoje não pretendo me demorar muito, tudo bem? Tenho uma vida normal lá fora! — gritei. Ele, então, pediu que eu não subisse as escadas, e sim que parasse no cubículo ao lado delas. Insistiu, e lá fui eu. Por que será que sempre faço o que esse meu amigo tão exótico me pede?
Estava ali parado, sem entender nada, já quase arrependido de ter ido visitá-lo, quando o piso começou a vibrar. A parte onde eu estava pisando começou a descer dentro de uma espécie de guia. Fiquei assustado e me apoiei nas barras que foram surgindo. Quando o movimento cessou, senti um frio na barriga — e me dei conta de onde estava. O cenário parecia de outro planeta: amplo e cheio de máquinas. O piso, de metal escovado, evitava escorregões. Em alguns pontos havia brilho, devido a algum tipo de óleo que escorrera. As paredes também eram revestidas de placas metálicas, com um leve brilho azulado. Dutos de todos os tipos corriam por elas — cabeamentos elétricos, mangotes hidráulicos e Deus sabe mais o quê. Num canto, sob uma escada metálica, vi duas mãos digitando dados em um velho teclado. Lá estava o Dr. Varek. Pelas lentes de seus óculos, observei caracteres desfilando em sequência, numa codificação que só ele compreendia.
Curioso, abaixei-me, peguei um pedaço de tubo do chão e bati nas escadas. O som estridente fez finalmente o Dr. Varek Antonov se virar — claro, depois de apertar calmamente a pausa no teclado. Ele olhou sério para mim e pediu que eu ficasse parado. Concordei sem discutir.
Não sei por quê, mas minha ansiedade desapareceu. Talvez hipnotizado pelo ambiente, senti-me como uma criança em um desconhecido parque de diversões. Dr. Varek voltou ao terminal e começou a digitar novamente. O piso começou a vibrar e, diante de mim, as chapas de aço que o forravam se moveram, revelando um duto subterrâneo. No centro, havia um diminuto monotrilho que sumia na escuridão. Achei que algo fosse sair de lá, mas pasmei ao ver um pequeno carrinho subir perpendicularmente até o nível do chão, posicionando-se no início do trilho.
— O que acha? Cabe uma pessoa aí dentro? — perguntou o Dr. Varek Antonov.
— Sei lá, parece meio apertado… deve dar dor nas costas…
Subi no carrinho para experimentar. Primeiro fiquei de pé; depois me abaixei e abracei os joelhos. Segurei uma pequena barra horizontal à frente e comecei a movimentá-la para cima e para baixo até ouvir um click! Dr. Varek puxou uma alavanca — e o carrinho começou a se mover.
Não foi para frente, mas desceu pelo piso.
Ouvi válvulas se abrirem, mangueiras hidráulicas estalarem sob alta pressão — e o medo tomou conta de mim. Eu estava sendo engolido para dentro do nível subterrâneo, encolhido dentro de um carrinho de ferro. Gritei, mas em vão. O carrinho acelerou, veloz. Vi luzes vermelhas e azuis passarem diante de mim.
“Deus… pra onde estou indo?” Antes que pudesse pensar, a velocidade diminuiu e me vi entrando em uma espiral descendente. Sons estranhos ecoavam. E então, vi uma figura metálica flutuante descendo ao meu lado. Nunca vira nada igual: uma estrutura hexagonal, com tentáculos que se abriam e fechavam, terminais mecânicos articulados e brilhantes. Emitia sons que pareciam binários, quase uma melodia. O medo desapareceu. Aquilo parecia ser meu guardião — uma criatura metálica luminosa.
De repente, ele abriu todos os tentáculos e projetou um espetáculo de luzes caleidoscópicas. As cores se alternavam num ritmo hipnótico, pareciam fractais, até que foram se organizando e formaram a imagem do meu rosto — com uma interrogação desenhada sobre minha cabeça. “Meu Deus… isso está vivo!”
A descida continuou, acompanhada pelo meu guardião luminoso, até que o carrinho parou. O pouco de luz que restava então se apagou. Quando voltou, vi o Dr. Varek sentado à minha frente. Ele estava lá em cima... como chegou ali?
Disse calmamente: — E então, o que fazemos? Revelamos a presença deles? Você, o típico cidadão comum, foi o escolhido para decidir. Eles têm a cura para muitas doenças, soluções práticas para inúmeros problemas sociais e podem nos levar a patamares que sempre sonhamos. Mas, em alguns planetas que tentaram fazer contato, a vida foi extinta. Dominados pelo ego, havia seres poderosos que mantinham o controle através do sofrimento — e toda essa tecnologia oferecida foi usada para esse fim, até que libertaram um poder que ninguém conseguiu conter. Tome um café, beba algo e reflita, meu caro amigo… Qualquer que seja sua decisão, nós a acataremos. A escolha é toda sua.
O que eu escolhi, você pergunta?
Espere alguns anos… e saberá.
© Gianni Rodrigues
13 de maio de 2002
Observação do Autor
Esta obra é uma criação ficcional. Todos os personagens, nomes, locais, eventos e diálogos são fruto da imaginação do autor e utilizados exclusivamente em contexto de ficção e fantasia. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou falecidas, instituições, grupos sociais, políticos, religiosos, científicos, fatos reais ou ideologias é mera coincidência e não deve ser interpretada como representação factual da realidade.
Elementos de terror, ficção científica, sátira, crítica social ou outros gêneros literários são empregados de forma alegórica, simbólica ou hiperbolizada, servindo unicamente aos propósitos de entretenimento, arte e reflexão. Não há intenção de difamar, endossar ou estimular qualquer tipo de violência, discriminação, preconceito ou ofensa a indivíduos, grupos ou crenças.
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