2 de jan. de 2002

O Despertar de Verônica

O DESPERTAR DE VERÔNICA

Verônica sempre foi uma menina diferente. Inteligente, disciplinada, curiosa — parecia viver desperta quando todos dormiam. Desde pequena, sua mãe se inquietava com o fato de a filha jamais conseguir descansar por completo.
Dormia pouco, e mesmo quando fechava os olhos, permanecia consciente. Dizia ouvir vozes, ruídos, o som distante de passos noturnos, como se o mundo não a deixasse adormecer.

Na escola, destacava-se com naturalidade. Não se cansava, não bocejava. Parecia ter dentro de si uma força que jamais se apagava. À noite, enquanto os pais dormiam, gostava de andar pela casa em silêncio, observando a luz pálida da lua atravessar as janelas.
Havia algo na escuridão que a acalmava — uma presença antiga, familiar, que ela não sabia nomear.

Certa vez, aos quatorze anos, ouviu falar de Dalila, uma mulher misteriosa que morava no fim da rua mais antiga do bairro. Diziam ser cigana, talvez bruxa. As crianças evitavam passar diante de sua casa, mas Verônica, movida por uma curiosidade que mal compreendia, decidiu procurá-la.

Dalila a recebeu com um olhar profundo, como quem reconhece um rosto há muito esquecido.
— Você não veio aqui por acaso — disse, embaralhando lentamente as cartas sobre a mesa.
As cartas se abriram como janelas, e a mulher suspirou:
— Seu corpo não dorme porque sua alma ainda não despertou. Você está entre dois mundos, menina. Quando fizer quinze anos, o sono virá... mas não será como o dos outros.

Verônica riu, confusa. Achou que fosse apenas uma metáfora, mas aquelas palavras ficaram presas em sua mente como espinhos invisíveis.

O tempo passou.
Na noite de seu aniversário de quinze anos, um salão iluminado nos fundos da igreja a esperava. Músicas, risadas, o tilintar dos copos. Tudo parecia perfeito, mas Verônica sentia-se estranhamente sonolenta pela primeira vez na vida.
Os olhos pesavam. O ar parecia rarefeito.

Quando o sino da igreja tocou doze vezes, uma vertigem a dominou. A cada badalada, o som parecia vir de dentro de sua cabeça, ecoando como um chamado.
— Você está bem? — perguntou Pedro, seu par na valsa.

Ela quis responder, mas as palavras não saíram. Uma tontura quente percorreu-lhe a nuca, e por um instante viu tudo em vermelho.
Depois, escuridão.

Quando abriu os olhos, o salão estava vazio. As luzes haviam sido apagadas, e apenas a lua atravessava as janelas altas, banhando o chão de um brilho frio.
Sentia algo diferente no corpo — leveza, mas também fome. Não uma fome comum. Era uma ausência que vinha da alma, um chamado antigo.

Caminhou até o espelho do banheiro. Sua pele estava mais pálida, e os olhos — antes castanhos — refletiam um tom rubro sob a luz. Encostou a mão no rosto e sentiu o frio.
Pela primeira vez, Verônica havia dormido de verdade — mergulhada num sono profundo, rendida ao esquecimento.
Mas o sono que a envolvera não era deste mundo.

Atrás dela, refletida no espelho, surgiu Dalila.
— Eu disse que o sono viria — murmurou a mulher. — A vigília acabou. Agora você pertence à noite.

Verônica voltou-se, tentando entender, mas Dalila já não estava ali.
Apenas o som do vento ecoava, e o sino da igreja, distante, marcava o fim de um dia que jamais amanheceria para ela.

Instintivamente, olhou ao redor. O salão estava em silêncio.
Entre as sombras, viu Pedro caído sobre o chão frio, com duas pequenas marcas no pescoço e a camisa manchada de sangue.
Verônica levou a mão à boca, assustada — e sentiu algo úmido. Quando olhou as pontas dos dedos, estavam vermelhas, tremendo sob a luz da lua.
O sangue era dele.
E agora, finalmente, ela sabia o que era dormir — mas nem sempre o dia amanhecia com ela.


Observações do Autor

Este conto é uma obra de ficção.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou falecidas, instituições, locais ou fatos reais é mera coincidência.

A história apresenta elementos de ficção gótica juvenil, inspirada no estilo narrativo dos anos 1980 e 1990, buscando recriar a atmosfera de mistério e descoberta típica desse período.

Nada neste texto tem por objetivo justificar crimes, glorificar a violência ou exaltar o sofrimento humano.
O enredo propõe apenas uma imersão simbólica no imaginário gótico dos vampiros, explorando a fronteira entre o sonho, o despertar e a perda da inocência.

© Gianni Rodrigues — versão revisada (2025)
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial sem autorização expressa do autor.

Nenhum comentário: